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Por que não há espaço para nós em redações? Parte II

21 de fevereiro de 2010

Continuando com a segunda parte e a resposta da pergunta:

De quem é a culpa?

Digamos que seja conjunto da obra…

1. Das faculdades que não preparam os jornalistas apropriadamente?

Os cursos superiores de jornalismo não preparam jornalista para profissão. Fato é, as faculdades nunca prepararam, a bagagem cultural e repertório o estudante adquire muito pouca na faculdade, algumas nem dispõe as ferramentas necessárias para o alunos aprender o que é a profissão. E como em qualquer outra profissão, jornalista só aprende na prática. A única oportunidade que o foca tem pra criar um produto e divulgar seu “peixe jornalístico” é no TCC.

2. Dos jornais que reformaram suas redações e não contratam mais os focas?

Os jornais não contratam mais focas. Não adianta ter trabalhado no jornal da escola ou faculdade, precisa de experiência real e muitos (afortunados) acabam trabalhando de graça para tentar entrar na profissão. Aos que não tem a boa sorte, peguem o que puder.

3. Do mercado que ficou abarrotado de profissionais?

O mercado está repleto de profissionais, mas, nem por isso faltam vagas. As grandes empresas sempre contratam profissionais para preencher seus quadros. Contudo, como disse na resposta anterior as redações preferem um experiente de 36 anos no lugar de um recém-formado aos 24 anos.

4. Das assessorias de imprensa, agências de comunicação e marketing que contratam os bons profissionais, com salários maiores que as redações?

Anos atrás ouvi que nossa geração iria para a internet. Trabalhar em portais e sites de entretenimento, narrando conteúdo online em tempo real, o próximo passo do jornalismo. A grande maioria hoje segue por outros rumos, Ótimos profissionais estão encontrando uma ótima forma de trabalhar e viver bem entre clientes e usuários de serviços, sendo em sua grande maioria os jovens com até menos de 5 anos de formação aptos aos constantes Cases de Sucesso. Outros ainda, seguem a carreira acadêmica atuando como pesquisadores e professores.

5. A falta alguém de coragem como Mino Carta e Claudio Abramo?

Não há editores como antigamente. Não por culpa deles, a função é meramente hierárquica. Ele não é mais a voz entre os funcionários e os donos, atua como outro funcionário e está fadado ao fracasso e a por os olhos na rua como qualquer outra pessoa. Um chefe disse-me uma vez “sou teu chefe pra levar mais porrada de cima, por que você acha que eu ganho mais?”

6. Há QI(Quem Indica) nas redações?

Não adianta mentir, esconder e enganar. As indicações existem aos montes no jornalismo, isso acontece em qualquer profissão. É habitual no mercado essa prática, o networking funciona muito melhor que currículos enxutos.


Redação do jornal "O Norte", não sei o que é pior os cabelos brancos aos montes ou aquele infiltração próxima do ar-condicionado

Perda de público e identidade

A antiga geração criou um fiasco atrás do outro, Limão e R7 são os melhores exemplos.

Com a falta dos jovens na redação não houve outra visão, ideia para revolucionar o mercado. Nos jornais e as mídias ficaram estagnadas por muito tempo. A crise financeira apenas acelerou o processo de queda na indústria midiática, os jornais circulam cada vez menos e perdem espaço para sites desconhecidos e redes sociais na internet. As novas ferramentas serão aplicadas apenas por jornalistas habituados com o fino trato das ondas digitais.

As mídias estão perdendo seu público mais fiel, os jovens, pois a mídia não é feita por eles. Ao chegar nos seus 35 anos a Geração Y não comprará mais jornal, não assistirá tv com frequência e não ouvirá ao rádio. Não há identidade dessa geração com aquele colunista que lia desde 20 anos e tinha idade similar a sua. Ou aquele audaz repórter que descobriu uma sujeirada na política. E o exímio entrevistador que fez perguntas pertinentes ao ídolo de uma geração.

A cultura também atrapalha no relacionamento entre jovens e mídia. Ao adentrar na redação e dar de cara com senhores de quase 70 anos trabalhando não como editor, sub-editor ou chefe de reportagem, mas como repórter demonstra o quão triste é a realidade. A cultura da aposentadoria não é normal no jornalismo, cansei de ler notícias de jornalista de idade avançada que morrem no expediente.

Jornalistas antigos não sabem se aposentar ou tomar outro rumo em sua vida, tanto que as faculdades estão repletas de professores doutores em comunicação e suas nuances com menos de 40 anos. Dizer que são inexperientes é até aceitável, os velhos dinossauros não querem pisar em sala e alguém tem que aceitar o desafio.

Futuro

Não resta nada para nós… Criaremos nosso próprio destino.

Se a rejeição das redações com a Geração Y continuar não haverá futuro para o jornalismo. Nos últimos dez anos não ouve nada, absolutamente nada novo no jornalismo, nenhuma explosão sem sentidos. As novas ferramentas são utilizadas melhores por ilustres desconhecidos, como o site Omelete, formado por ex-marqueteiros que não tem nenhum fino trato com o texto jornalístico e por muitas vezes falta com respeito ao leitor.

Não haverá mais grande nomes do jornalismo e não existiria veículos midiáticos expressivos. A Geração Y foi esquecida deixada para trás, aquela que tinha mais possibilidade de anexar a tecnologia as boas práticas do jornalismo não teve seu devido respeito. Quer queira quer não, as mídias precisam do nosso dinheiro. Precisam que nós trabalhemos, criemos vínculo e identidade com o seu noticiário, nenhuma empresa de mídia obteve esse contato com o jovem.

Qualquer um poderá ter o direito de reportar e apurar o que bem entende.

Na internet somos livres. Não há imposição aos nossos desejos, vocês ficam a margem dos nossos pés e acabam por contratar por verdadeiras fábulas o rapaz que não sabe escrever um texto sobre quadrinhos, mas que é engraçadinho e tem audiência. Esse tipo de contratado todos nós sabemos que utilizará a pior ferramenta da geração, CTRL+C e CTRL+V. O mercado está repleto de pilantras que pioram a situação dos recém-formados e denigrem a imagem dos novos focas.

Não será a Geração Y estimulante do fim do jornalismo como conhecemos, o mercado será. Em qualquer outra área jovens entram e tomam postos-chave aos montes nas empresas e no governo. Como o jovem ator e cientista social, Kal Penn. Aos 32 anos, Penn atuou em filmes e séries de TV, largou uma carreira artística de sucesso no último ano para trabalhar na equipe de relações públicas da Casa Branca, como diretor.

O futuro para os jovens nascidos entre as décadas de 70 e 90 é tornar-se jornalistas cidadãos. Voltaremos aos primórdios do jornalismo, o jornalismo será a segunda profissão de muitos. A maioria trabalhará em agências, assessoria e na criação de conteúdo internos para empresas. O jornalismo como conhecemos será feito por desconhecidos atuando fora do expediente de serviço, ouvem um boato aqui e ali.

Os jovens criaram seus próprios veículos, criarão elo com seu público e levarão (já estamos fazendo) as empresas para a bancarrota. Como por exemplo, não adianta cobrar por conteúdo. Podemos pegar em outro site e os grandes conglomerados perdem sua audiência e o patrocinador, afinal saberemos captar dinheiro… Ficaremos anos em assessoria de imprensa com pensamentos corporativistas e capitalistas e a linguagem do mercado na ponta do Tablet.

2 Comentários leave one →
  1. rômulo martins permalink
    22 de fevereiro de 2010 10:18

    Há controvérsias. Como você mesmo afirmou as faculdades não são suficientes para prepararem profissionais. Parece que formação sólida e boa cultura geral depende muito mais de nós mesmos… Mas é frustrante a dificuldade encontrada para ingressar na área entre aqueles que se esforçam muito e, sabemos, têm bastante competência. Muitas vezes não conseguem né, partem para outra direção. É a lei da oferta e demanda. (debates-romulo.blogspot.com / twitter.com/martinsromulo)

    • munndanos permalink*
      22 de fevereiro de 2010 20:22

      Sim, Rômulo.

      O espaço está escasso aos jovens. Resta apenas opções adversas do mercado, chegará num ponto (hoje acontece com 90% da minha turma) onde ninguém escolherá trabalhar em redação jornalística ao término do curso.

      Portanto, caso continue no ritmo atual o mercado acabará com o jornalismo. Como você disse, lei da oferta e demanda.

      Abraços e apareça mais vezes,
      Henrique

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