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Causos do Cotidiano: Minha primeira lição de política

3 de março de 2010

Assisti o midiático Maluf rendido, por um bando de ginasiais.

Outro dia respondi em meu formspring.me “o que te deu pra gostar de política?
Como o formspring.me é uma rede social baseada em pergunta e resposta, tentei responder de forma sucinta. Mas, ao deixar um recente no Blog de Antônio Celso,  historiador e professor. Lembrei de outro episódio, na mesma época deste relatado no formspring.me.

Há época estudava numa escola municipal, era começo de ano, como agora. Os candidatos estavam pré-postados, Paulo Maluf tentava decidir se concorria ao governo ou presidência. Na escola, começamos a receber merenda de alto nível, bolos, sucos, toddynho, bolachas recheadas e o famoso Leve Leite, guloseimas que jamais receberíamos até ali.

Em breve chegaria alguns computadores, doados pela IBM em sala montada com dinheiro da APM, R$ 25 por aluno. Minha mãe pagou R$ 50, eu e meu irmão estudávamos na escola. Quando os computadores chegaram e a sala estava quase pronta o “burburinho” começou e alguns dias fora concretizado, Paulo Maluf viria à escola com seu secretariado.

Dois dias antes, os marqueteiros da campanha de Maluf apareceram em nossas salas de aula para escolher alunos “bonitinhos” para tirar foto com o então prefeito ao lado dos novos computadores, “comprados” pela prefeitura. Fui escolhido como um dos alunos fotogênicos, afinal era loirinho, olhos verdes…

Apenas um adendo, todo mundo na escola era adepto do Malufismo. Alunos, professores, coordenadores, diretor e  membros da secretaria. As exceções eram os porteiros, serventes e merendeiras, o baixo clero.

Será que Maluf colocou esta historinha no livro dele?
Será que Paulo Maluf colocou esta historinha no livro dele?

Não sei o que me deu, mas escolhi não ir ao dia da inauguração. Aquela foi minha primeira lição de política, decidi não ser fantoche de propaganda política. Ao imaginar minha imagem ao lado de Maluf em outdoors ao redor do estado, ou pior, do país, me deu pesadelos. Falei “mãe não vou”, ela entendeu de cara e pediu para não atender ao telefone. No alto de sua sabedoria ela falou “olha, eles não escolheram você por acaso, mas pegarão outra criança pra foto”.

Me senti pior até, mas sei que tomei a decisão certa. Horas depois da aula, um amigo me ligou. Ele também havia sido escolhido para ser fotografado. Logo pensei “ele posou, acho que não pensou nas consequências”. Mas, meu amigo contou as novidades com animação:

– Você viu? – disse ele.

– Não, não vi. – Respondi.

– O Maluf foi lá, com toda aquela festa… Trouxe placa pra inaugurar a sala, tevê, jornal e papagaios.

– E daí?

– Ele começou a fazer brincadeiras com os alunos.

– E…

– Ele perguntou pra gente se a merenda era boa?

– O que vocês responderam?

– Nãaaaaaaooooooooo! Acabei por não tirar a foto, acho que o Maluf ficou tão vermelho que ia ficar feio na foto.

Caí na gargalhada, era uma mistura de comédia buffa com alívio. À noite, no SPTV lembro até hoje da voz de Carlos Tramontina – um dos melhores âncoras da TV brasileira – “Em visita a escola municipal alunos reclamam de merenda para Paulo Maluf”.

Embora tenham sidos instalados 400 laboratórios de informática durante a gestão Maluf, os alunos mal podiam aproveitar os computadores. O único programa no computador era Logo Writer, um software francês de 1988, com uma tartaruga que servia apenas para fazer desenhos geográficos, podiamos usar apenas uma vez por semana e não tinha peças de reposição. Afinal, a IBM deu os computadores, os programas e manutenção ficariam por conta da prefeitura de SP.

Em outras palavras, ao queimar algum periférico ou o sumiço das “bolinhas de mouse” , os computadores eram inutilizados. Não demorou, para cair tudo em desuso e ser outro elefante branco do Malufismo. Não sei se a minha reclusão ajudou, mas, vi o poderoso Malufismo rendido pelas mãos de um bando de estudantes ginasiais. É por isso que gosto de política!

Resultado, dali até o fim do ano recebemos Toddynho todos os dias e Paulo Maluf não foi candidato ao Governo de SP naquele ano e muito menos à Presidência. Assim como, nunca mais foi eleito para um cargo executivo.

One Comment leave one →
  1. 25 de novembro de 2011 2:01

    Eu nem acredito que li isso! eu com 35 anos agora, passei pela medma experiência na Escola Municipal Amadeu Mendes, com os mesmos computadores e o mesmo logo frances… ainda me lembro dos comandos utilizados (frente 10, angulo, e tudo mais)kkk e ele visitou a minha escola também… achei que só eu lembrava disso… bom relembrar essas coisas e descobrir que hoje sou um homem melhor por ter vivido uma época tão intensa, e ter visto o COMEÇO de tudo… da informática… da internet…

    Hoje tenho uma empresa de tecnologia… e ainda me lembro das minhas raizes no logo frances…

    Saudações… e Deus abençoe a todos por terem me dado a oportunidade de relembrar algo tão marcante e engraçado…

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